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Voluntariado internacional
Fábio Abdala sabia que sua missão não seria nada fácil, mas apesar das dificuldades vividas durante sua viagem às áreas alagadas da Bielorússia, ele tirou proveito dessa experiência única e inesquecível.
O Consultor de Sustentabilidade para Operações da Alcoa na América Latina e Caribe conta sua vivência e cita algumas surpresas ocorridas durante a expedição “Áreas Alagadas da Bielorússia”, em um país cuja biodiversidade surpreendente deve ser preservada.
Rede do Bem Alcoa – Como você foi escolhido para participar da expedição “Áreas Alagadas da Bielorussia”?
Fábio Abdala - Foi simples: participei do processo seletivo! Assim como eu, uma centena de candidatos também participaram. No final éramos 15 Alcoanos voluntários distribuídos em quatro cantos do mundo. No caso da Bielorússia éramos três Alcoanos (brasileiro, australiana e russa) em um time de oito voluntários (uzbeque, grego, tcheca, inglês e canadense).
A seleção promovida pela Alcoa Foundation e o Earthwatch Institute acontece anualmente e é aberta a todos os Alcoanos interessados neste tipo de voluntariado científico. Existe até uma página com informações sobre as datas e inscrição.
Acredito que se busque equilibrar a seleção incluindo participantes de todos os continentes, afinal nossa empresa é global, assim como certa diversidade de gênero e geração. Por isso, recomendo fortemente a candidatura de voluntários e voluntárias de nossa região. Não há limite de idade para participar!
Rede do Bem Alcoa – Qual a conexão entre a Amazônia e a Bielorússia?
Fábio Abdala - No meu blog já havia mencionado que ambas as regiões guardam riquezas ambientais ímpares e estão sobre grande pressão humana.
Em particular as áreas alagadas são drenadas e destinadas à produção agrícola e silvicultura de pinheiros, e, além disso, o musgo predominante (sphagnum moss) é extraído para produção de energia. As conseqüências disso sobre o ciclo hidrológico e o clima regional são negativas, também provocando impactos na produtividade dos solos.
Do ponto de vista institucional também compartilhamos um problema comum: as interações inter-setoriais são limitadas e prejudicam soluções integradas, quer dizer, os setores ambiental e de agricultura no governo, assim como os cientistas ambientais e sociais interagem precariamente; e lá as organizações civis são menos ativas e conectadas do que na Amazônia.
Tive a impressão também que as condições de vida na Bielorússia (um país europeu do leste), na média, são mais robustas e menos desiguais que na Amazônia, cuja pobreza nas áreas rurais, ribeirinhas e periferias urbanas são conhecidas.
Rede do Bem Alcoa – A diversidade botânica da região te surpreendeu?
Fábio Abdala - A biodiversidade amazônica é tão exuberante que quando nos deparamos com as florestas homogêneas de pinheiros (nativas) da Bielorússia, à primeira vista, não nos impressionamos.
Porém, na medida em que estudamos o ambiente e passamos a compreender suas interações, nosso olhar ganha outras dimensões. Os musgos, por exemplo. Eu desconhecia a diversidade e importância deles até participar desta expedição. Naqueles alagados predominam 18 diferentes espécies de musgos, que revelam muito do valor da biodiversidade local e da evolução da poluição. Podem ser úteis como antibióticos e anticancerígenos e são excelentes sumidouros de carbono. Tornei-me um “musgo-lover”!
Minha conclusão é: se quiser salvar o clima, cultive musgos e algas – consumindo altas toneladas de carbono e produzindo oxigênio em abundância, respectivamente.
Trabalho em equipe
Rede do Bem Alcoa – Quais eram os papéis do Instituto Earthwatch e da Alcoa Foundation na expedição?
Fábio Abdala - A Alcoa Foundation financia parte da pesquisa lá realizada, inclusive todos os custos para recebimento dos voluntários Alcoanos em campo. O Instituto Earthwatch conecta a financiadora com o Instituto Nacional de Botânica Aplicada e organiza a participação dos voluntários.
Presenciei a seriedade do trabalho realizado pelos pesquisadores bielorrussos e sua importância para geração de conhecimento sobre as dinâmicas do território e sua conservação.
Rede do Bem Alcoa – Quais as dificuldades ocorridas durante a viagem?
Fábio Abdala - Trabalho exaustivo, língua estranha e alimentação limitada só para citar três exemplos.
Quem acha que levantamento florístico é um passeio na floresta para coletar plantas, está muitíssimo enganado! Trata-se de trabalho exaustivo, misto entre atividades descritivo-analíticas e trabalho braçal, com longas caminhadas sobre áreas alagadas, abrindo picadas na floresta para avançar entre as diferentes conformações ecológicas que compõem o território em estudo, topografia, contagem de árvores, coleta de plantas, sob sol e chuva, na companhia de insistentes mosquitos em busca de sangue novo.
Rede do Bem Alcoa – Como foram resolvidas?
Fábio Abdala - Como resolver? Com muita água, concentração, trabalho colaborativo e… protetor solar e repelente!
Minsk, capital da Bielorussia
Apesar do inglês internacional, para latino-falantes como nós, no nível local, a língua sempre impõe alguma dificuldade quando se trata do cirílico, uma linguagem ininteligível para mim, lógico. Mas nada que não se superasse pelo afável interesse do povo local em se comunicar com os estrangeiros.
Por exemplo: assim que cheguei em Minsk, capital do país, resolvi dar uma volta para conhecer a cidade. No Metrô, ao pedir informações a algumas pessoas, me dei conta de que ninguém me entendia em inglês! Funcionou a linguagem corporal e a mímica. No final uma senhora entendeu que se tratava de um turista acidental e me guiou até a estação desejada. Aliás, Minsk é agradável e muito bem cuidada.
A alimentação em campo não era a mais nutritiva e gostosa. Almoço diário: sanduíche de queijo, pepinos e chá nos onze dias campo. Mas também não dava para fazer banquetes no meio das florestas alagadas. Os poucos mantimentos e equipamentos que carregávamos eram suficientes para nos deixar exaustos após longas caminhadas entre os pântanos.
Em compensação, a área era repleta de “berries” (bilberry, blueberry etc.) em quantidades para alimentar ursos, também presentes ali. Nossas noites também eram brindadas com pratos típicos e sopas deliciosas.
Rede do Bem Alcoa – Qual o balanço final da experiência?
Fábio Abdala - O balanço é altamente positivo: participei de um trabalho científico de alto nível, conheci gente muito boa, vivenciei a diversidade de culturas dos voluntários, tudo isso em um país surpreendente. Enfim, eu recomendo!
Fora do contexto da expedição, um fato que me marcou muito foi a presença dos marcos históricos das guerras vividas pelo país, em particular da II Guerra. Cultivam a memória do conflito, da invasão nazista, das crueldades, das resistências e seus heróis, provavelmente para evitar que aconteça novamente. Não se passa incólume às cicatrizes que a guerra deixou na Bielorússia.
Rede do Bem Alcoa – Se você pudesse participar de uma nova expedição para onde seria e por quê?
Fábio Abdala - Não escolhi ir para a Bielorússia, mas voltaria com prazer. Assim que comecei a me preparar para a expedição e, ao chegar ao país, percebi que fui para o lugar ideal: totalmente desconhecido onde tudo era descoberta e aprendizado, com um time de voluntários e pesquisadores que tornaram a expedição muitíssimo proveitosa. Ou seja, o fundamental é a chance de aprender e interagir com pessoas e lugares especiais, o que podemos encontrar seja nas florestas do Quênia ou do Equador, seja nas montanhas tchecas ou da Nova Escócia.



